Alimentação do cavalo em Portugal: três leis sem números e o cavalo que não é animal de companhia
Última verificação: 12 de outubro de 2026
A ração herda-se mais do que se consulta, e a versão herdada tem certezas sobre coisas que a investigação não tem. Esta página fica-se por duas fontes: o que a lei portuguesa exige de facto, e o que dizem os consensos veterinários publicados — com os números, e assinalando onde o conselho habitual vai à frente da evidência.
Isto resume legislação e literatura publicadas, e não substitui a opinião de um médico veterinário. A ração de cada cavalo depende do peso, do trabalho, dos dentes, do estado metabólico e da forragem que tem à frente. Quem decide o que se aplica ao seu é um veterinário ou um nutricionista equino — sobretudo num cavalo com laminite, desregulação da insulina, propensão para úlceras ou abaixo do peso.
No Brasil? Leia antes a versão brasileira — a resolução do CFMV, o capim que prende o cálcio e o milho com fumonisina.
Três leis, e nenhuma diz quanto
A regra que a DGAV aponta para o bem-estar dos equídeos é o Decreto-Lei n.º 64/2000, que transpõe a Diretiva 98/58/CE relativa à proteção dos animais nas explorações pecuárias. Sobre alimentação responde como a diretiva: uma alimentação sã, adequada à idade e à espécie, em quantidade suficiente para manter o animal de boa saúde; acesso ao alimento a intervalos adequados às suas necessidades fisiológicas; e acesso a água. Não há nenhum número: nem horas de acesso à forragem, nem percentagem do peso vivo, nem número de refeições por dia, nem intervalo máximo entre elas.
E tem um limite de alcance que convém conhecer. Foi escrito para explorações pecuárias, e a diretiva que transpõe exclui expressamente os animais destinados a competições, exposições e manifestações ou atividades culturais ou desportivas. Se um cavalo de desporto ou de lazer cabe nele é uma pergunta que o texto não resolve com clareza.
A regra que vale de certeza para qualquer proprietário está noutro lado. Desde a Lei n.º 8/2017, que deu aos animais um estatuto jurídico próprio, o artigo 1305.º-A do Código Civil obriga quem tem um animal a assegurar o seu bem-estar e a respeitar as características da espécie — e diz o que isso inclui, à cabeça: a garantia de acesso a água e a alimentação de acordo com as necessidades da espécie. É a obrigação mais larga das três, e também não traz número.
A terceira é a que mais gente supõe que se aplica, e talvez não se aplique. O crime de maus-tratos do Código Penal protege animais de companhia, e se um cavalo o é está precisamente em disputa: em 2021 o Parlamento rejeitou projetos para permitir registar cavalos como animais de companhia, e em março de 2026 o PAN voltou a propô-lo, argumentando que os maus-tratos a cavalos ficam hoje sem punição. Para quem alimenta um cavalo, a conclusão é a mesma em qualquer cenário: a lei penal também não diz quanto.
Nada disto é uma particularidade portuguesa. A Alemanha responde à mesma pergunta em horas de forragem e a Áustria em número de refeições por dia, mas Espanha, Suíça e Inglaterra também ficam pelo suficiente. Se a lei só pede suficiente, o número tem de vir de outro lado. O que se segue é de onde.
O único número com carimbo oficial é sobre a água
Na sua página de boas práticas para equídeos, a DGAV divulga a versão portuguesa do guia de bem-estar dos equídeos da Plataforma da UE para o Bem-Estar Animal, com fichas sobre alimentação, água, alojamento e cascos. A ficha da água traz os únicos números desta página que chegam com esse carimbo: os cavalos «bebem normalmente 5 – 10% do peso deles diariamente» — 25 a 50 litros num cavalo de 500 kg — e «não devem ficar sem água por períodos maiores que quatro horas».
Continua a ser uma recomendação, não uma obrigação legal. Mas é a que convém ter à mão quando um bebedouro avaria, ou quando o cavalo passa um dia de agosto em viagem.
Quase todos os números publicados são por quilo de peso vivo
É a razão prática para pesar a ração em vez de contar medidas. As recomendações abaixo estão todas expressas em gramas ou percentagens por quilo de peso vivo do cavalo, por isso nenhuma se aplica a «meia medida» sem saber duas coisas: quanto pesa o cavalo e quanto leva a medida.
Uma medida é um volume, e as rações têm densidades diferentes — a mesma medida pode levar pesos bastante diferentes de dois produtos, e uma medida a transbordar não é uma medida rasa. Pese uma vez a medida de cada ração, numa balança de cozinha, e escreva o número no balde. Essa única pesagem torna verificável cada recomendação desta página.
Amido: os dois números com fundamento
O consenso do ECEIM sobre a síndrome de úlcera gástrica equina faz uma recomendação alimentar invulgarmente concreta:
A dieta não deve exceder 2 g/kg de peso vivo de amido por dia, nem mais de 1 g/kg de peso vivo de amido por refeição.
Num cavalo de 500 kg são 1 kg de amido por dia e 500 g numa só refeição. O mesmo documento regista que ultrapassar 2 g/kg de peso vivo por dia se associa a cerca do dobro da probabilidade de doença gástrica escamosa de grau 2/5 ou superior.
Repare no que está a ser limitado: amido, não ração. Um quilo de uma mistura com 20 % de amido contém 200 g de amido; um quilo de uma ração à base de cereais com 40 % contém o dobro. O valor vem no rótulo ou pede-se ao fabricante, e sem ele o limite não se pode aplicar — se não estiver declarado, peça-o, porque os constituintes de declaração obrigatória nem sempre incluem o amido. É também por isso que dividir a mesma quantidade diária por mais refeições não é um pormenor cosmético: o número por refeição é um limite à parte do diário.
Onde a evidência é mais fraca do que o conselho
«Dê mais forragem e as úlceras resolvem-se sozinhas» é a afirmação mais repetida do tema. O consenso não a sustenta tal como é dita. Regista que o acesso livre a alimento fibroso é amplamente considerado redutor do risco de ulceração gástrica, «embora também faltem provas sólidas que sustentem essa convicção», e que num estudo que comparou uma dieta rica em fibra com outra isoenergética pobre em fibra, tanto o número como a gravidade das lesões escamosas foram maiores no grupo da fibra alta. Sobre o acesso à pastagem, classifica a evidência como contraditória.
Nada disto tira importância à forragem — continua a ser a base da ração, e a palha como forragem única associa-se a maior probabilidade de doença escamosa. O que significa é mais estreito e mais útil: a forragem, por si só, não é um tratamento, e um cavalo com suspeita de úlceras precisa de veterinário e de gastroscopia, não de uma rede de feno maior e mais seis semanas.
Uma página que só lhe conta a metade confortável da literatura não merece confiança no resto.
O cavalo que engorda só de olhar para a erva: os números para emagrecer
Para a obesidade e a desregulação da insulina, o consenso do ECEIM sobre a síndrome metabólica equina recomenda uma dieta à base de feno de gramíneas de várias espécies a 1,25–1,5 % do peso vivo real em matéria seca, o equivalente a 1,4–1,7 % tal como é dado. O documento é franco ao dizer que há debate sobre o grau ideal de restrição, «pela preocupação de não cobrir os requisitos mínimos de forragem» — que é precisamente a razão por que este número se aplica com o veterinário e não por conta própria.
Há dois resultados do mesmo documento que convém conhecer antes de montar a rotina:
- Demolhar funciona, mas não é preciso. Demolhar o feno 7 a 16 horas à temperatura ambiente reduz os hidratos de carbono solúveis em água entre 24 e 43 %, e associa-se a mais do dobro da perda de massa corporal em comparação com o mesmo feno seco. O intervalo é largo porque o feno varia — demolhar baixa o açúcar, não o padroniza.
- Cortar horas de pastagem muitas vezes não corta a ingestão. O cavalo compensa comendo mais depressa: registaram-se mais de 0,9 % do peso vivo em matéria seca em apenas três horas de pastagem. Os açaimes de pastoreio reduzem a ingestão para 77–83 % da do pastoreio sem açaime, e entretanto o cavalo continua a procurar comida e a mexer-se.
Em Portugal esse cálculo tem calendário. A erva rebenta com as primeiras chuvas de outono e cresce depressa na primavera, e são esses os dois momentos em que a mesma pastagem, com as mesmas horas, dá bastante mais açúcar do que no pico do verão seco. Num estudo de quatro anos com éguas Lusitanas em regime extensivo, a condição corporal foi mais alta no fim da primavera e desceu até ao fim do verão, e o peso acompanhou a erva disponível. As horas de pastagem que funcionavam em agosto não são as mesmas em abril — e o cavalo que em setembro precisa de feno é muitas vezes o mesmo que em maio precisava de açaime.
As rações à base de cereais e as guloseimas de fruta ou legumes ficam de fora destas dietas pela mesma razão: o seu teor em hidratos de carbono não estruturais.
Condição corporal: o número que diz se resultou
Tudo o que vem antes é entrada — o que vai para o balde, quanto e com que frequência. A condição corporal é a saída: uma estimativa, feita com as mãos, da cobertura de gordura em pontos concretos do cavalo, e a única coisa que responde à pergunta para a qual a ração foi escolhida. Está a resultar?
Existe porque o olho não é fiável, e não de forma vaga. O consenso sobre a síndrome metabólica regista que vários estudos identificaram uma tendência dos proprietários de cavalos obesos para subestimar a condição do seu animal, e junta-lhe uma explicação incómoda: a obesidade equina é hoje suficientemente comum para «levar à habituação e à aceitação desse estado como aparentemente normal». A cavalariça onde tem o cavalo calibrou-lhe o olho, e não necessariamente bem.
Duas escalas, e o número nada significa sem se saber qual
- De 1 a 9 — Henneke e col., 1983. 1 é caquético e 9 extremamente gordo. É a escala em que trabalha a maior parte da investigação publicada, incluindo o consenso do ECEIM, e foi desenvolvida originalmente em éguas reprodutoras Quarter Horse.
- De 0 a 5 — Carroll e Huntington, 1988. 0 é caquético e 5 extremamente gordo; o 2 e o 3 descrevem condição moderada e boa. É a escala de uso corrente no Reino Unido e em boa parte da Europa.
Por isso um 3 é um cavalo magro numa escala e um cavalo em boa condição na outra. Um número escrito sem a escala não é informação: registe-o como 3/5 ou 3/9, nunca como 3. É exatamente o pormenor que sobrevive a uma conversa e desaparece na seguinte.
O pescoço pontua-se à parte
A gordura da crista do pescoço tem número próprio, porque não acompanha o resto do cavalo e não significa o mesmo. A pontuação da crista do pescoço vai de 0 (sem crista) a 5 (uma crista grande que tomba para um lado), e considera-se que há crista a partir de 3. Carter e col., que a descreveram, acharam-na «útil na avaliação da adiposidade da crista do pescoço» e com «relevância fisiológica, demonstrada pelas associações com variáveis sanguíneas» — as medidas do pescoço que acompanha foram as que se correlacionaram com a insulina. É por isso que se pontua à parte: o consenso do ECEIM define a obesidade incluindo a gordura regional excessiva, e regista adiposidade regional segundo essa definição em 33 % dos cavalos estudados no sudoeste de Inglaterra. Um cavalo pode ter uma pontuação global banal e uma crista que merece ser comentada com o veterinário.
Onde a pontuação é mais fraca do que parece
O mesmo documento é franco sobre os limites da ferramenta que recomenda, e cada um deles muda o que pode concluir de um número:
- Achata no topo. A relação entre gordura corporal total e pontuação deixa de ser linear «quando a condição corporal ultrapassa 7/9» — a partir daí a pontuação deixa de acompanhar a gordura, e a massa corporal mede melhor.
- Pode não mexer mesmo com a dieta a resultar. O documento regista «alterações variáveis da condição corporal após 6–12 semanas de restrição energética». Uma pontuação que não mexeu em dois meses não é, por si só, prova de fracasso.
- A primeira semana, na maior parte, não é gordura. Esperam-se perdas maiores na primeira semana de restrição «pela redução do enchimento intestinal», logo que a ingestão desce.
- Pode estagnar ao fim de doze semanas. A partir daí a mesma restrição pode deixar de ter o mesmo efeito, porque a taxa metabólica em repouso se adapta para baixo. Uma estagnação é razão para voltar ao veterinário, não para cortar mais por conta própria.
Por isso a resposta são os dois números, e nenhum a olho. Para a massa corporal o documento considera ideal a balança, e cita como alternativas úteis as fitas de pesagem e as aplicações que combinam medidas da barriga, do perímetro torácico e da garupa; a pontuação diz-lhe onde está essa massa. Estimar o peso a olho é o único método sobre o qual a literatura não tem dúvidas — e não é bom.
Escreva-a, porque quem dá de comer nem sempre é quem decidiu
Todos os números acima são vencidos pela mesma coisa: a ração que vive na cabeça de alguém. Quem prepara a ração ao sábado raramente é quem a decidiu, «uma medida» combinada em março derivou até agosto, e uma alteração feita por boa razão na terça-feira é invisível para quem lá estiver na quarta.
Escreva a ração onde todos os que dão de comer a possam ler — o quê, quanto, quando e em que dias, porque o cereal que se tira ao fim de semana é exatamente o pormenor que se perde. E escreva ao lado o amido de cada produto, para que o limite por refeição se possa verificar em vez de estimar.
Um plano que todos os que dão de comer conseguem ler
O EquiDiary guarda o plano alimentar no próprio cavalo: o que come, quanto, quando e em que dias. Todas as pessoas com quem partilha o cavalo leem o mesmo plano — na casa da ração, sem rede, onde o sinal não chega — e só o proprietário o pode alterar. Quando o altera, a aplicação propõe-lhe registar a mudança no diário, para que o que o cavalo comia no mês passado continue a ter resposta quando for preciso. Vai estar fora? Um link de partilha leva o plano a quem fica com as rações, sem precisar de conta.
Fontes
- DGAV — Equídeos: bem-estar animal (o Decreto-Lei n.º 64/2000, alterado pelo Decreto-Lei n.º 155/2008, como regra de bem-estar dos equídeos: alojamento, abeberamento, alimentação e pessoal)
- Diretiva 98/58/CE do Conselho relativa à proteção dos animais nas explorações pecuárias, EUR-Lex (artigo 1.º: exclusão dos animais destinados a competições, exposições e atividades culturais ou desportivas; anexo, pontos 14 a 16: alimentação e água — sem números)
- Lei n.º 8/2017, que estabelece um estatuto jurídico dos animais, Diário da República (artigo 1305.º-A do Código Civil: bem-estar e acesso a água e alimentação de acordo com as necessidades da espécie)
- Parlamento recusa possibilidade de cavalos serem animais de companhia, Público, 5 de novembro de 2021
- PAN quer permitir registo de cavalos como animais de companhia para proteção contra maus-tratos, Observador, 16 de março de 2026
- DGAV — Boas práticas de bem-estar dos equídeos (o guia da Plataforma da UE para o Bem-Estar Animal e as suas fichas técnicas em português)
- Plataforma da UE para o Bem-Estar Animal — ficha técnica sobre a água dos equídeos (5 a 10 % do peso por dia; não mais de quatro horas sem água)
- Sykes e col. — European College of Equine Internal Medicine Consensus Statement: Equine Gastric Ulcer Syndrome in Adult Horses, Journal of Veterinary Internal Medicine 29(5):1288 (amido por refeição e por dia, evidência sobre forragem e acesso à pastagem, palha)
- Durham e col. — ECEIM consensus statement on equine metabolic syndrome, Journal of Veterinary Internal Medicine 33(2):335 (ingestão em restrição, feno demolhado, açaimes de pastoreio, hidratos de carbono não estruturais, subestimação pelo proprietário, limites da condição corporal)
- Henneke e col. — Relationship between condition score, physical measurements and body fat percentage in mares, Equine Veterinary Journal 15(4):371 (a escala de 1 a 9)
- Carroll e Huntington — Body condition scoring and weight estimation of horses, Equine Veterinary Journal 20(1):41 (a escala de 0 a 5)
- Carter e col. — Apparent adiposity assessed by standardised scoring systems and morphometric measurements in horses and ponies, The Veterinary Journal 179(2):204 (a pontuação da crista do pescoço)
- Fradinho e col. — Nutritional status of Lusitano broodmares on extensive feeding systems, Italian Journal of Animal Science 12:e71 (condição corporal e peso de éguas Lusitanas ao longo de quatro anos em pastagem)
- National Research Council — Nutrient Requirements of Horses, 6.ª edição revista (a obra de referência por trás da maioria das rações publicadas)
Citados por DOI e não pela ligação do editor de propósito: os dois consensos mudaram de editor desde a publicação e os DOI sobreviveram à mudança. Os consensos são revistos; verifique se existe uma edição mais recente antes de se apoiar num.
Também disponível em Português (Brasil) · English (US, UK, Australia) · Español (España, México) · Deutsch (Deutschland, Österreich, Schweiz) · Français (France, Belgique, Suisse) · Italiano (Italia, Svizzera) · Nederlands (Nederland, Vlaanderen) — uma mesma pergunta, quinze respostas normativas: a Alemanha conta em horas, a Áustria em refeições por dia, e Portugal, Espanha, Suíça, Inglaterra, França e México ficam pelo suficiente sem dar número. A Valónia é a exceção: tem os números mais precisos de todos — 16 horas de acesso, no máximo quatro sem comer — num parecer que não obriga ninguém.
A seguir: carga de trabalho do cavalo — quanto trabalha realmente e como saber.