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Alimentação do cavalo no Brasil: a lei sem número, as quatro horas do CFMV e o capim que rouba o cálcio

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Última verificação: 12 de outubro de 2026

A dieta do cavalo se herda mais do que se consulta, e a versão herdada tem certeza de coisas que a pesquisa não tem. Esta página se atém a duas fontes: o que a norma brasileira exige de fato, e o que dizem os consensos veterinários publicados — com os números, e mostrando onde o conselho de sempre vai além da evidência. E acrescenta o que um guia europeu não teria por que dizer: no Brasil, o próprio pasto pode ser o problema.

Este texto resume normas e literatura publicadas, e não substitui o seu médico-veterinário. A dieta de cada cavalo depende do peso, do trabalho, dos dentes, do estado metabólico e do volumoso disponível. Quem decide o que vale para o seu é um médico-veterinário ou um zootecnista que trabalhe com equinos — principalmente num cavalo com laminite, resistência à insulina, tendência a úlcera ou abaixo do peso.

Em Portugal? Leia antes a versão portuguesa — o DL 64/2000, o Código Civil e o cavalo que não é animal de companhia.

O que a lei diz — e o que ela não diz

A lei que se invoca para tudo é a Lei 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais. O artigo 32 pune quem pratica «ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos», com detenção de três meses a um ano e multa. Não fala em comida. Não há número nenhum: nem horas de acesso ao volumoso, nem percentual do peso vivo, nem número de refeições por dia, nem intervalo máximo entre elas.

E o cavalo ficou de fora da mudança mais recente. Em 2020, a Lei 14.064 criou uma pena bem maior — reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda —, mas só quando a vítima é cão ou gato. Para o cavalo continua valendo a pena do caput.

A única cifra nacional está numa resolução

O número que existe em âmbito nacional não está na lei, e sim na Resolução CFMV nº 1.236/2018, do Conselho Federal de Medicina Veterinária, que define e caracteriza crueldade, abuso e maus-tratos contra animais vertebrados. Ela trata como maus-tratos também a omissão e a negligência, e no artigo 5º inclui entre eles submeter o animal a trabalho ou esforço físico por mais de quatro horas ininterruptas sem lhe oferecer água, alimento e descanso.

Vale ler isso com cuidado. É uma norma do conselho profissional, que orienta a conduta de médicos-veterinários e zootecnistas — não uma lei que obrigue diretamente o dono. E as quatro horas falam de trabalho, não de cocheira: dizem quanto tempo um cavalo pode trabalhar sem parar para beber e comer, não quanto ele deve comer nem de quanto em quanto tempo no resto do dia.

Ainda circula a regra das «seis horas»: o Decreto 24.645/1934 vedava fazer o animal trabalhar mais de seis horas contínuas sem água e alimento. O Planalto lista esse decreto como revogado desde 1991, e há juristas que sustentam que ele segue em vigor. De um jeito ou de outro, é mais uma regra sobre trabalho, e mais folgada que a do CFMV. Algumas cidades foram além para o cavalo de carroça — Belo Horizonte, por exemplo, limita a jornada a oito horas e exige água e alimento pelo menos de quatro em quatro horas.

O Mapa publica manuais de boas práticas — um de manejo em equideocultura (2017) e uma série para o turfe cujo primeiro volume é todo sobre alimentação (2022) —, mas são orientação, não norma. A Alemanha responde à mesma pergunta em horas de volumoso e a Áustria em refeições por dia; Espanha, Portugal e Inglaterra ficam no «suficiente». A lei brasileira não chega nem a isso. Se ela não diz quanto, o número tem de vir de outro lugar. O que segue é de onde.

Quase todos os números publicados são por quilo de peso vivo

Essa é a razão prática para pesar a ração em vez de contar medidas. As recomendações abaixo estão todas expressas em gramas ou em porcentagens por quilo de peso vivo do cavalo, então nenhuma se aplica a «meia medida» sem saber duas coisas: quanto o cavalo pesa e quanto cabe na medida.

Uma medida é volume, e as rações têm densidades diferentes — a mesma medida pode trazer pesos bem diferentes de dois produtos, e uma medida cheia até a boca não é uma medida rasa. Pese uma vez a medida de cada ração, numa balança de cozinha, e anote o número no balde. Essa única pesagem transforma cada recomendação desta página em algo que dá para conferir.

Amido: os dois números com respaldo

O consenso do ECEIM sobre a síndrome da úlcera gástrica equina faz uma recomendação alimentar incomumente concreta:

A dieta não deve passar de 2 g/kg de peso vivo de amido por dia, nem de 1 g/kg de peso vivo de amido por refeição.

Num cavalo de 500 kg, isso dá 1 kg de amido por dia e 500 g numa única refeição. O mesmo documento registra que passar de 2 g/kg de peso vivo por dia se associa a cerca do dobro da probabilidade de doença gástrica escamosa de grau 2/5 ou pior.

Repare no que está sendo limitado: amido, não ração. Um quilo de uma mistura com 20 % de amido traz 200 g de amido; um quilo de uma ração à base de grãos com 40 % traz o dobro. O dado nem sempre vem no saco: se não vier, peça ao fabricante. Sem esse número o limite por refeição não se calcula — só se chuta. É também por isso que dividir a mesma quantidade diária em mais refeições não é detalhe: o número por refeição é um limite à parte do diário.

Milho, aveia e ração: onde está o amido de verdade

O volumoso — capim, feno de tifton ou de coastcross, alfafa — não é onde o limite de amido se rompe. O amido está no grão e no concentrado, e o milho é o caso mais subestimado: o amido dele é o que pior se digere no intestino delgado, e o que passa direto chega ao ceco para fermentar, que é o caminho clássico para a cólica e a laminite. A aveia, com o mesmo peso, é bem mais benigna nesse ponto. E o milho tem um segundo problema, que aparece mais abaixo: a fumonisina.

Quando o pasto é o problema

Num guia europeu o pasto entra como fonte de açúcar. No Brasil ele pode ser coisa pior — e os dois casos mais bem documentados envolvem o mesmo capim.

Cara inchada: o capim que prende o cálcio

Alguns capins tropicais acumulam oxalato, que se liga ao cálcio no intestino e impede que ele seja absorvido. O organismo responde tirando cálcio dos ossos, que vão sendo substituídos por tecido fibroso — o hiperparatireoidismo nutricional secundário, ou osteodistrofia fibrosa. Os ossos da face incham, e daí vem o nome popular: cara inchada. Antes disso costumam aparecer claudicação e rigidez.

A Brachiaria humidicola é o caso mais estudado. Puoli Filho e colegas mantiveram potras de um ano só nesse pasto por 150 dias, com 1,18 a 2,00 % de oxalato no capim, e mesmo com o dobro do cálcio recomendado pelo NRC na suplementação os animais continuaram perdendo cálcio dos ossos. O Panicum maximum cv. Aruana tem relatos de casos publicados. Potros em crescimento e éguas em lactação são os que mais perdem.

Duas consequências práticas. Primeiro, sal mineral não é tudo igual: o formulado para bovinos não foi pensado para o cálcio do cavalo e, se for rico em fósforo, empurra a relação cálcio:fósforo para o lado errado. Segundo, o problema não se resolve com mais do mesmo — o estudo acima mostra que nem o dobro do cálcio bastou naquele pasto. A suplementação, e a decisão de manter ou não o cavalo naquele capim, se acertam com o veterinário.

A mesma braquiária, outro problema

A B. humidicola aparece de novo como causa de fotossensibilização hepatógena: no nordeste do Pará, Barbosa e colegas descreveram a doença em cavalos que pastavam exclusivamente nela e a atribuíram às saponinas do capim. Num levantamento nacional das intoxicações por plantas, Pessoa, Medeiros e Riet-Correa apontam a B. humidicola e a Crotalaria retusa — esta, só no semiárido — como as principais plantas tóxicas para equinos no Brasil.

Milho: o mofo que nem sempre aparece

A leucoencefalomalácia é uma doença neurológica, quase sempre fatal, causada pela fumonisina — uma micotoxina de fungos Fusarium — no milho e nos seus subprodutos, e o cavalo é especialmente sensível a ela. Costuma-se associá-la a milho armazenado e mofado, mas um surto descrito na Ciência Rural em 2019 aconteceu com milho verde, em fase de grão leitoso, colhido e dado direto aos animais: dois de três cavalos mostraram sinais neurológicos cerca de uma semana depois e morreram em torno de um dia após o início dos sinais, e a amostra tinha 2 ppm de fumonisina. Os autores concluíram que o milho imaturo também pode estar contaminado e não deve ser dado a cavalos.

Onde a evidência é mais fraca do que o conselho

«Dê mais volumoso que a úlcera se resolve sozinha» é a frase mais repetida do assunto. O consenso não a sustenta desse jeito. Registra que o acesso livre a alimento fibroso é amplamente considerado redutor do risco de ulceração gástrica, «embora também faltem provas sólidas que sustentem essa crença», e que num estudo que comparou uma dieta rica em fibra com outra isoenergética pobre em fibra, tanto o número quanto a gravidade das lesões escamosas foram maiores no grupo de fibra alta. Sobre o acesso ao pasto, classifica a evidência como contraditória.

Nada disso tira a importância do volumoso — ele continua sendo a base da dieta, e a palha como volumoso único se associa a mais doença escamosa. O que significa é mais estreito e mais útil: o volumoso, sozinho, não é tratamento, e um cavalo com suspeita de úlcera precisa de veterinário e de gastroscopia, não de uma rede de feno maior e mais seis semanas.

Uma página que só conta a metade confortável da literatura não merece que você acredite no resto.

O cavalo que engorda só de olhar: os números para emagrecer

Para obesidade e desregulação da insulina, o consenso do ECEIM sobre a síndrome metabólica equina recomenda uma dieta à base de feno de gramíneas de várias espécies a 1,25–1,5 % do peso vivo real em matéria seca, o equivalente a 1,4–1,7 % como oferecido. O documento admite abertamente que há debate sobre o grau ideal de restrição, «pela preocupação de não atender às exigências mínimas de volumoso» — e é justamente por isso que esse número se aplica com o veterinário, e não por conta própria.

Dois resultados do mesmo documento valem ser conhecidos antes de montar a rotina:

Aqui esse cálculo tem calendário próprio, e não é o europeu: na maior parte do país o pasto segue as águas e a seca, não as quatro estações. O rebrote vem com as chuvas, e as horas de piquete que funcionavam no fim da seca podem entregar bem mais açúcar no começo das águas, com o mesmo pasto e o mesmo relógio.

Rações à base de grãos e petiscos de fruta ou verdura ficam fora dessas dietas pela mesma razão: o teor de carboidratos não estruturais.

Condição corporal: o número que diz se funcionou

Tudo o que veio antes é entrada — o que vai para o balde, quanto e com que frequência. A condição corporal é a saída: uma estimativa, feita com as mãos, da cobertura de gordura em pontos específicos do cavalo, e a única coisa que responde à pergunta para a qual a dieta foi escolhida. Está funcionando?

Ela existe porque o olho não é confiável, e não de um jeito vago. O consenso sobre síndrome metabólica registra que vários estudos identificaram uma tendência dos donos de cavalos obesos a subestimar a condição do animal, e coloca ao lado uma explicação incômoda: a obesidade equina hoje é comum o bastante para «levar à habituação e à aceitação desse estado como aparentemente normal». O haras ou a hípica onde o seu cavalo fica calibrou o seu olho, e não necessariamente bem.

Duas escalas, e o número não diz nada sem saber qual

Então um 3 é um cavalo magro numa escala e um cavalo em boa condição na outra. Um escore anotado sem a escala não é informação: registre como 3/5 ou 3/9, nunca como 3. É exatamente o detalhe que sobrevive a uma conversa e some na seguinte.

O pescoço tem escore próprio

A gordura da crista do pescoço tem número próprio, porque não acompanha o resto do cavalo e não significa a mesma coisa. O escore de crista do pescoço vai de 0 (sem crista) a 5 (uma crista grande que tomba para um lado), e considera-se que há crista a partir de 3. Carter e cols., que o descreveram, o acharam «útil na avaliação da adiposidade da crista do pescoço» e com «relevância fisiológica, demonstrada pelas associações com variáveis sanguíneas» — as medidas do pescoço que ele acompanha foram as que se correlacionaram com a insulina. Por isso ele é avaliado à parte: o consenso do ECEIM define a obesidade incluindo a gordura regional excessiva, e registra adiposidade regional segundo essa definição em 33 % dos cavalos estudados no sudoeste da Inglaterra. Um cavalo pode ter um escore geral sem nada de especial e uma crista que vale comentar com o veterinário.

Onde o escore é mais fraco do que parece

O mesmo documento é franco sobre os limites da ferramenta que recomenda, e cada um deles muda o que dá para concluir de um número:

Por isso a resposta são os dois números, e nenhum no olho. Para a massa corporal o documento considera ideal a balança, e cita como alternativas úteis as fitas de pesagem e os aplicativos que combinam medidas da barriga, do perímetro torácico e da garupa; o escore diz onde essa massa está. Estimar o peso no olho é o único método sobre o qual a literatura não tem dúvida — e ele não é bom.

Anote, porque nem sempre é você quem trata

Todos os números acima perdem para a mesma coisa: a dieta que mora na cabeça de alguém. Quem trata o cavalo no sábado raramente é quem decidiu a dieta, «uma medida» combinada em março já derivou até agosto, e uma mudança feita por um bom motivo na terça é invisível para quem estiver lá na quarta.

Escreva a dieta onde todo mundo que trata o cavalo possa ler — o quê, quanto, quando e em que dias, porque o grão que se tira no fim de semana é exatamente o detalhe que se perde. E anote ao lado o amido de cada produto, para que o limite por refeição possa ser conferido em vez de estimado.

Um plano que todo mundo que trata o cavalo consegue ler

O EquiDiary guarda o plano alimentar no próprio cavalo: o que ele come, quanto, quando e em que dias. Todas as pessoas com quem você compartilha o cavalo leem o mesmo plano — na sala de ração, offline, onde o sinal não chega — e só o proprietário pode mudá-lo. Quando você muda, o aplicativo oferece registrar a mudança no diário, para que o que o cavalo comia no mês passado continue tendo resposta quando precisar. Vai viajar? Um link de compartilhamento leva o plano a quem fica com o trato, sem precisar de conta.

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Fontes

Citados por DOI e não pelo link da editora de propósito: os dois consensos mudaram de editora desde a publicação e os DOI sobreviveram à mudança. Consensos são revisados; confira se existe uma edição mais recente antes de se apoiar num.

Também disponível em Português (Portugal) · English (US, UK, Australia) · Español (España, México) · Deutsch (Deutschland, Österreich, Schweiz) · Français (France, Belgique, Suisse) · Italiano (Italia, Svizzera) · Nederlands (Nederland, Vlaanderen) — a mesma pergunta, quinze respostas normativas: a Alemanha mede em horas, a Áustria em refeições por dia, a maior parte da Europa para no «suficiente», e no Brasil a única cifra nacional está numa resolução do conselho de veterinários, não na lei.

A seguir: vermifugação do cavalo no Brasil — OPG, resistência à ivermectina e o teste que vale a pena fazer.