Vermifugação do cavalo no Brasil: medir antes de confiar no produto
Última verificação: 3 de novembro de 2026
Estudos brasileiros já registraram reduções da contagem de ovos de 6% após ivermectina. Antes de escolher o intervalo, a pergunta é outra: o produto que você usa ainda funciona no seu plantel?
Este texto resume estudos e orientações publicados e não substitui a opinião do seu médico-veterinário. Esta página trata do Brasil. Se o cavalo está em Portugal, leia a versão portuguesa.
A ivermectina já não é o que era — e há dados brasileiros para provar
Este é o ponto de partida, porque muda tudo o que vem depois. Trabalhos publicados em revistas brasileiras revisadas por pares vêm mostrando falha de eficácia da ivermectina em ciatostomíneos no país. Num levantamento em propriedades do estado de São Paulo, cinco delas apresentaram redução da contagem de ovos abaixo de 90% depois do tratamento — 70%, 87%, 6%, 46% e 89%. Um valor de 6% não é variação de método: é um produto que deixou de funcionar naquele lugar.
Um estudo mais recente na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária foi além e testou o que muita gente faz por instinto — aumentar a dose. Com ciatostomíneos resistentes à dose padrão de 200 µg/kg, a redução da contagem de ovos cinco semanas após o tratamento ficou abaixo de 83% mesmo com 300 a 400 µg/kg. O título do artigo fala por si: um quadro sombrio para o controle sustentável de parasitas. Em estabelecimentos militares do Rio Grande do Sul, foi documentada resistência múltipla — fenbendazol e moxidectina em animais jovens, fenbendazol e pamoato de pirantel em adultos.
A conclusão prática não é «troque de produto». É que ninguém no Brasil pode presumir qual molécula funciona na sua propriedade sem medir. A rotação cega entre classes, feita há décadas, foi justamente o que produziu este quadro.
O teste que responde à pergunta: o TRCOF
O teste de redução da contagem de ovos fecais é simples: conta-se o OPG de cada cavalo antes do tratamento e repete-se 14 dias depois. A queda percentual diz se aquela molécula ainda serve no seu plantel. Uma redução abaixo de 90% aponta resistência — foi exatamente esse o critério usado nos estudos acima.
| Passo | O que fazer |
|---|---|
| OPG antes | amostra individual, animal a animal |
| Tratamento | dose correta para o peso real — subdosagem seleciona resistência |
| OPG depois | 14 dias após o tratamento |
| Leitura | redução abaixo de 90% indica resistência àquela classe |
Tratamento seletivo em vez de calendário
A orientação internacional — a mesma da AAEP nos Estados Unidos e da ESCCAP na Europa — é tratar com base no OPG e não no calendário, porque mais da metade dos cavalos adultos excreta poucos ovos e não se beneficia do tratamento. O limiar de trabalho mais usado é de 200 ovos por grama. No Brasil isso importa duas vezes: reduz a pressão de seleção num país onde a resistência já está instalada, e evita gastar num produto que talvez nem esteja funcionando.
Onde o OPG não decide
- Potros e animais jovens — o parasita relevante é o Parascaris, o risco de obstrução é real e o esquema é próprio, não seletivo: segue a idade e o plantel. O OPG não desaparece: mostra se ainda há ascarídeos e se o tratamento funcionou.
- Tênia — não há correlação entre ovos encontrados e carga real, e um OPG isolado é pouco confiável. Informam mais os métodos de enriquecimento com amostras de vários animais do plantel, ou um teste de anticorpos na saliva ou no sangue (os validados são vendidos no Reino Unido); decide-se com o veterinário, e com poucos animais o usual é um tratamento preventivo uma vez por ano.
- Larvas enquistadas na parede intestinal — não põem ovos, e é a saída em massa que causa a doença grave. Se devem ser tratadas, quem decide é o veterinário, pela idade, histórico, época do ano e pressão de infecção do plantel.
Clima, pasto e lotação
Em boa parte do Brasil não existe um inverno que quebre o ciclo das larvas na pastagem, o que torna o manejo mais decisivo do que em climas temperados. Retirar as fezes do piquete, controlar a lotação, fazer rotação e fazer o OPG dos animais que chegam antes de misturá-los ao lote tiram mais larvas de circulação do que qualquer seringa — e não selecionam resistência.
Como o EquiDiary ajuda
O OPG entra como evento, com data, valor e quem colheu — e o par antes/depois do teste de redução fica lado a lado no histórico do animal, que é onde a resposta aparece. Um plano na categoria Vermifugação avisa quando é hora de contar de novo, sem inventar tratamento nenhum.
Perguntas frequentes
De quanto em quanto tempo devo vermifugar meu cavalo?
A pergunta mudou. A orientação atual é contar os ovos nas fezes (OPG) e tratar quem passa o limiar de trabalho, habitualmente 200 ovos por grama, em vez de seguir calendário fixo — com esquemas próprios para potros, tênia e larvas enquistadas.
A ivermectina ainda funciona no Brasil?
Depende da propriedade, e só o teste diz. Estudos brasileiros documentaram reduções da contagem de ovos de 70%, 87%, 6%, 46% e 89% em propriedades de São Paulo, e outro trabalho mostrou redução abaixo de 83% mesmo dobrando a dose em ciatostomíneos resistentes.
Aumentar a dose resolve a resistência?
Os dados publicados dizem que não. Em ciatostomíneos resistentes à dose padrão, doses de 300 a 400 µg/kg mantiveram a redução da contagem de ovos abaixo de 83% cinco semanas depois. Subdosar é pior ainda: seleciona resistência.
Como faço o teste de redução da contagem de ovos?
Conta-se o OPG de cada animal antes do tratamento e de novo 14 dias depois. Redução abaixo de 90% indica resistência àquela classe no seu plantel.
Fontes
- Reduction of egg reappearance period of cyathostomins in naturally infected horses after increasing doses of ivermectin in Brazil — Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária
- Multiple resistance in equine cyathostomins: a case study from military establishments in Rio Grande do Sul, Brazil
- Resistência anti-helmíntica da ivermectina em equinos no Estado de São Paulo — UNESP
- AAEP — Internal Parasite Control Guidelines (tratamento seletivo por OPG, tênia, potros e animais jovens)
- Lightbody, Davis & Austin (2016) — Validation of a novel saliva-based ELISA test for diagnosing tapeworm burden in horses, Vet Clin Pathol 45:335–346
- ESCCAP — diretriz 8 para parasitas gastrintestinais dos equinos, a referência europeia equivalente
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Ver também: vacinação do cavalo no Brasil — os 360 dias da GTA e os seis meses da FEI.